terça-feira, 3 de abril de 2012

Resistência a Foz do Iguaçu

2 de abril de 2012 - segunda feira

Antes de sair de Resistência, tive que esticar a corrente da moto, que houvera folgado bastante. Feito isso, lubrificamos as correntes das 3 motos e saímos. Para pecorrer os primeiros 25 km, levamos 45 min, pois tivemos que sair de Resistência, cruzar a ponte Gral. Belgrano sobre o rio Paraná e atravessar a cidade de Corrientes sem usar a faixa central da avenida principal (que é a continuação da ruta 12). Muitos sinais e velocidade limitada contribuiram para a baixa média de velocidade.

Ingressamos na ruta 12 e o dia foi todo passado nessa estrada. Almoçamos em Posadas e às 18:00 h chegamos à fronteira Argentina/Brasil. Ao parar na aduana argentina minha moto desligou e não quis mais funcionar. Creio que foi o regulador de voltagem que se estragou, danificando a bateria.

Demos um tranco para ligar e entramos no Brasil, na cidade de Foz do Iguaçu. Fomos para o hotel Muffato com a moto sem carregar a bateria; o farol foi ficando fraco, até a buzina parou de funcionar. Com alguma dificuldade, chegamos ao hotel.

                                                                                   Hotel Colon, em Resistencia


Almir morou por 20 anos em Foz, conhece tudo na cidade. Ele foi para a casa de sua sogra, onde pernoitaria, e Júlio e eu ficamos no hotel. Mais tarde, Almir veio nos encontrar no hotel, de onde saímos para tomar cervejas e comer petiscos no bar do Ceará, seu amigo, onde ficamos até as 24:00 h. Comemoramos o sucesso da viagem, que consideramos excelente. Fui e voltei de carona na garupa do Almir, pois minha moto estava morta, nem ligava.



Ponte Gral. Belgrano





                                            Fronteira Brasil-Argentina

domingo, 1 de abril de 2012

Um dia de ruta 16, cruzando o Chaco

A previsão para o dia de hoje era cruzar todo o Chaco pela ruta 16 até chegar a Resistência, onde pernoitaríamos .

Só saímos efetivamente de Joaquim V. Gonzales às 9:40 h, já com calor. Mantivemos a velocidade entre 110 e 120 km/h durante quase todo o percurso, de pouco mais de 700 km.

Não há muito o que dizer sobre a ruta 16: sempre plana, sem qualqer atrativo às suas margens, quente e com o asfalto iniciando um processo de deterioração em alguns trechos, em especial dentro da província de Salta.



A única coisa digna de nota foi o local onde paramos para almoçar em Pampa de los Guanacos: sujo, mal frequentado e com aparência nada convidativa, mas não havia outra opção a menos de 75 km e já estava ficando tarde. Fui olhar a churrasqueira e havia um gato morto na mesma, então achamos prudente não pedir churrasco. Nosso pedido foram 3 frangos à milanesa, encharcados de gordura, que comemos para não ficar com fome. Júlio e Almir ainda comeram ao todo 9 ovos fritos, os 3 de cada um e mais os meus 3.





Na saída, a dona do restaurante e mais as meninas que a ajudavam (seriam suas filhas?) ficaram embasbacadas com as motos, acho que nunca haviam visto uma dessas de perto. Tiramos fotos e seguimos nosso caminho. Acho que a passagem de 3 motoqueiros brasileiros por lá foi um evento, e será sempre lembrada!


Continuamos pela monótona ruta 16 até chegar a Resistência às 17:30 h. Não rodamos demais, foram 715 km em 7:30 h, mas o forte calor nos deixou cansados. Hospedamo-nos no hotel Colón, onde tenho ficado, em um espaçoso quarto triplo com direito a um banho de 1º mundo.

À noite, cerveja Stela com picada (tira gosto). Excelente!

Susques a Joaquim V. Gonzáles

31 de março de 2012

O dia amanheceu com céu totalmente azul e temperatura de 8 ºC em Susques, ideal para cruzar os 160 km de cordilhera que ainda faltavam.

A Falcon andou muito bem, fraca pela altitude e falta de oxigênio, mas venceu todas as subidas bem, inclusive a subida entre Salinas Grandes e Abra de Potrlillos, onde chegamos a 4.200 msnm.

Paramos em Salinas Grandes, onde conhecemos Pablo Luna, um motoqueiro argentino que estava fazendo uma viagem com uma Falcon até o México. Diversos motociclistas param por lá para aproveitar o local exótico, e sempre vamos conversando e conhecendo aventureiros como nós, que querem descobrir a América do Sul.


Na saída de Salinas Grandes, um motociclista local com uma pequena moto estava parado na beira da estrada, sem gasolina, e qualquer posto estava a mais de 100 km. Ele queria apenas conseguir subir a montanha, pois conseguiria descer desligado até chegar a algum povoado onde pudesse obter gasolina com conhecidos. Lembrei-me do Juan, que dispôs de seu tempo, boa vontade e experiência para me ajudar no Chaco e dei-lhe a gasolina que trazia em um galão para emergência. Essa era a emergência. Eu tinha a obrigação de fazer algo por alguém pra não ficar tão em débito com a justiça dos céus! Fiz o que deveria e segui viagem. Almir e Júlio estavam mais atrás, quando me alcançaram eu já estava bem mais adiante.                                      Não é neve, é sal!




Em uma parada para fotos na descida da imponente Cuesta de Lipán, conhecemos um motociclista austríaco que viajava de Honda Varadero. Ele houvera ficado maravilhado com Purmamarca, e eu lhe disse que ele gostaria ainda mais de San Pedro de Atacama. Ele se foi empolgado, não acredtava que ainda pudesse haver uma cidade mais interessante que Purmamarca. Seu irmão vinha um pouco atrás, com uma Honda Transalp. Eles despacharam as motos da Europa para Montevidéu,                                                            


onde iniciaram a viagem pelo continente sul americano O transporte custou US$ 2.000,00, e a Varadero custou US$ 4.000,00 na Áustria. Considerando-se que o salário médio dos europeus é maior que o nosso, é mais fácil para eles fazerem este tipo de viagem.



Continuando nossa viagem, descemos a Cuesta de Lipán, sempre imperdível, passamos pela região dos cardones (cactus gigantes) e entramos em Purmamarca pra retirar dinheiro em um caixa eletrônico.

Já em altitude mais baixa, a Falcon voltou a render novamente, e pude andar bem, embora sem conseguir manter o ritmo da GS 800 e da V Strom 1000, o que é normal.

Almoçamos em Jujuy, em um posto na estrada, e 160 km adiante saímos da ruta 9 para entrar na ruta 16, que cruza a província do Chaco. Rodamos mais 100 km e paramos em Joaquim V. Gonzales para pernoitar.


À noite saímos de moto pela cidade sem capacete (uma delícia), ninguém o usa por aqui. Tomamos merecidas cervejas Quilmes em um bar e depois fomos jantar uma parrilhada. Nosso hotel é ótimo (Ayres de Campo), uma descoberta de Júlio e Almir, que pernoitaram nele na ida, após nos conhecermos no Chaco.


Amanhã cruzaremos a ruta 16 com destino a Resistência. Era nossa intenção ir a Salta e passar um dia por lá para ir a San Antônio de los Cobres, mas a perda da jaqueta, dinheiro e documentos do Almir nos fez mudar de rumo, o que é compreensível.
                                                   GE, Júlio e Pablo, Salinas Grandes

sexta-feira, 30 de março de 2012

Um trecho sempre difícil

Pela manhã, enquanto Júlio e Almir faziam o passeio aos geiseres del Tatio, comprei corda para rebocar a minha moto em caso de necessidade, um pincel, óleo diesel e abasteci a moto. O pincel e o diesel são para limpar as correntes, que estavam impregnadas de óleo com pó de pedra das estradas de rípio.

Limpei e lubrifiquei as correntes das 3 motos e saí para caminhar pela cidade e aproveitei para pegar a roupa que houvera mandado lavar.

Eles chegaram do passeio às 12:30 h, almoçamos correndo para desocupar o quarto antes das 13:00h e eu fui para a aduana para partir antes, pois logo eles me alcançariam na estrada. Nossa meta era chegar a Susques para pernoitar por lá.

Na saída de San Pedro para o Paso de Jama há uma subida de 50 km bem acentuada, com a estrada passando ao lado do vulcão Licancabur. Consegui andar por 36 km, quando a moto não conseguiu mais subir. Os próximos 4 km foram percorridos em 1 hora, até que a moto parou e não conseguia nem arrancar na ladeira. Esperei por 45 min a mais de 4.500 msnm, com vento e muito frio, mas Almir e Júlio não chegavam. Consegui fazer a moto funcionar e andei mais 9 km, e ela parou novamente, sem força para continuar. Passados mais ums 20 minutos, eles chegaram.

                                                                                   Vulcão Licancabur, 5990 msnm, ao lado da estrada

Almir houvera perdido sua jaqueta com R$ 1.500,00, mais documentos e cartões de crédito. Eles tiveram que registrar a ocorrência junto aos Carabineros de Chile, para que pudessem deixar o país sem os documentos da moto, esta foi a razão do atraso.

Amarramos minha moto com a corda na moto do Almir e ele me rebocou ladeira acima, uma situação perigosa, devido aos trancos. Qualquer bobeada resultaria em um tombo. Após a grande subida, tentei andar com a moto sem corda, mas ela não passava de 40 km/h em 3ª marcha, então Almir passou a empurrá-la com o pé. Fui ajudando com o que o motor da Falcon conseguia fazer, mas ele empurrou por 110 km, até o Paso de Jama. As belas e radicais paisagens não puderam ser curtidas como deveriam.

Preparando para rebocar a Falcon
 


No Paso de Jama, contamos com a boa vontade dos policiais federais argentinos, que se dispuseram a nos ajudar, para que o Almir pudesse ingressar com a moto sem documentos na Argentina. A sorte foi que entramos por lá alguns dias atrás, então eles rastrearam o número do chassis da moto e autorizaram seu ingresso em solo argentino. Imagine se fosse na Bolívia...

Já eram 19:10 h quando saí do Paso


                                          Acidente com "cegonha" e 9 carros, todos incendiados na puna

de Jama na frente dos outros dois, para ganhar tempo. Já estava escurecendo e ainda estávamos a 120 km de Susques. Eles me alcançaram 40 km adiante, e o Almir continuou empurrando a Falcon com o pé. Passamos pelo Salar de Olaroz e por diversas lagunas altiplânicas, que mais pareciam um mar de águas verdes. Escureceu, a temperatura caiu mais e começou a chover, mas não paramos, continuamos em frente até chegar ao complexo Pastos Chicos, em Susques, às 20:40 h. Andamos mais 1 hora à noite sob chuva, com o Almir empurrando minha moto a até 100 km/h. Estávamos exastos, tanto pela viagem em si, como também pela tensão de andar "rebocado" por cerca de 200 km e pela perda da jaqueta e dos documentos do Almir. O trecho é sinuoso em grandes altitudes. Jantamos, conseguimos um quarto para três e fomos dormir.
                                           Trecho San Pedro - Susques, a mais de 4500 msnm

A travessia da cordilheira dos Andes entre Jujuy e San Pedro nunca foi fácil, devido às altitudes envolvidas, o que se reflete em problemas nas motos carburadas (caso da Falcon), falta de oxigênio para nós e muito frio. Mas vencemos mais esta etapa!

San Pedro de Atacama II

Enquanto espero meus companheiros de viagem voltarem de um passeio aos geiseres del Tatio, dei mais uma volta por esta cidade apaixonante que atrai visitantes de todo o mundo, principalmente europeus, com predominância de nórdicos e alemães. San Pedro na verdade é um óasis no árido deserto do Atacama, um local rústico e simples, de acesso difícil, mas que apaixona quem a conhece.
Aproveito para enviar algumas fotos do local.




quinta-feira, 29 de março de 2012

San Pedro de Atacama

O dia de hoje foi um semi pit stop para descansarmos o corpo do ritmo intenso dos últimos dias.




Pela manhã vagamos por San Pedro de Atacama, uma cidade diferente e charmosa. Entramos em lojas, tiramos fotos e curtimos o astral diferente do local, abençoado pelo imponente vulcão Licancabur, com seu cume eternamente nevado e sua altura de 5.950 m.



À tarde fomos fazer um passeio, que já fiz duas vezes anteriormente, mas que sempre me agrada: visitar o vale da morte e o vale da lua. Andamos em locais que se assemelham a paisagens lunares, assim como também circulamos em regiões em que o solo é puro sal, que brota das entranhas da terra. Não chega a ser um salar, pois o mecanismo de formação é outro, mas é uma coisa diferente para nós. Culminando o passeio, assistimos ao por do sol no vale da lua, sobre uma duna gigante, um espetáculo sempre bonito, com o sol se pondo de um lado e uma imensa sombra projetando-se sobre o vulcão Licancabur. O céu vai mudando de cor até o total desaparecimento da luz solar, quando a lua assume o espetáculo.

Estamos fazendo uma pequena modificação em nossos planos: para ganhar tempo de viagem e evitar transtornos maiores como viajar à noite e frio intenso, devemos partir amanhã após o almoço, com previsão de pernoite em Susques, povoado situado a 3.850 msnm. a meio caminho entre San Pedro de Atacama e San Salvador de Jujuy. Do dia seguinte pretendemos chegar a Salta.

Vencendo as cordilheiras - um dia intenso

28 de março de 2012

Saimos da pousada em Tilcara e seguimos até Purmamarca, pequeno povoado de origem indígena muito simples, bonito e agradável, pois Júlio e Almir queriam comprar meias de lã, e eu precsava sacar mais dinheiro em moeda argentina.

Eu saí para a subir a montanha na frente deles, devido às limitações da Falcon frente à BMW GS 800 e à V-Strom 1000. Subi com alguma dificuldade e muita paciência a imponente Cuesta de Lipán, um zig-zag pela montanha, atingindo a altitude de 4.180 msnm em seu ponto mais alto. A moto ficou muito fraca e falhando, mas fui subindo devagar, curtindo cada curva e cada nova montanha que aparecia pela frente. Nenhuma foto seria capaz de mostrar a imponência da montanha riscada pela estrada serpenteante, e nenhuma descrição seria justa com a grandeza e beleza do local. É a 4ª vez que passo por aqui, e sempre me emociono e me sinto pequeno diante de tamanha grandiosidade da natureza.




                                          Fronteira Argentina-Chile a 4.350 msnm

Desci a montanha pelo outro lado e cheguei a Salinas Grandes, um imenso salar rasgado pela ruta 52. Fiquei esperando pelos companheiros de viagem em Salinas Grandes, no meio do salar, durante 45 min, o que me deixou mais bronzeado do que um dia inteiro na praia. O salar fica a cerca de 3.400 m de altitude.
                                            Salar Salinas Grandes

Quando eles chegaram, parti na frente, sempre devido às limitações da minha moto. Segui no ritmo que conseguia andar, e em alguns trechos chegava até os 80 km/h. Realmente, uma moto carburada é totalmente contra-indicada para grandes altitudes.

Encontramo-nos em Susques, a 160 km de Purmamarca, para almoçar, às 13:40 h. Abastecemos as motos, pois ainda havia um longo caminho pela frente até nosso destino, San Pedro de Atacama, no Chile. Ficamos sabendo que havia sido aberto um posto de gasolina em Paso de Jama, na fronteira Argentina-Chile, o que eliminou a necessidade de levar galões de gasolina como reserva.

Nossa próxima parada foi justamente no Paso de Jama, na fronteira, depois de passar por paisagens incríveis, bandos de Lhamas e alpacas e um deserto de altitude frio, vazio e belo. A estrada corre a uma altitude de 3.650 m entre cumes de montanhas, algumas com neve em seu topo.

Após os trâmites aduaneiros em Jama (saída da Argentina), a estrada chega a 4.350 m de altitde, ingressa no Chile e continua nessa incrível altitude. Mais lagunas altiplânicas e paisagens de tirar o fôlego, com temperatura de 6 ºC. Minha moto começou a piorar, e já eram mais de 17:00 h. Júlio e Almir passaram por mim e combinamos nos encontrar na aduana de San Pedro de Atacama, 160 km adiante, os mais difíceis da travessia, devido à altitude. A Falcon já não conseguia mais ter força para andar em 5ª marcha, fui em 4ª a 60 km/h. Em qualquer subida, tinha que reduzir para 3ª ou 2ª, caindo a velocidade para menos de 40 km/h.

                                         Laguna altiplanica a mais de 4.300 msnm

Em um trecho onde há uma subida mais forte, a temperatura já estava em 3,5 ºC e a moto não conseguia subir, afogava, parava e não tinha forças sequer para arrancar em 1ª, mesmo queimando a embreagem. Cheguei a saltar e empurrar a moto ladeira acima com a pequena ajuda do motor, para ver se conseguia ao menos chegar ao topo, mas o frio intenso e a falta de oxigênio mostraram que eu não conseguiria. Estava a cerca de 4.800 m de altitude, próximo ao ponto mais alto da estrada, estava escurecendo e ainda faltavam 110 km para San Pedro. Fui subindo com a moto aos trancos em 1ª, a menos de 5 km/h, torcendo para a moto aguentar aquela exigência, pois eu dependia dela para sair dali. Fui subindo naquele sufoco por mais de 40 min e não  andei mais que 3 km.

Consegui, a duras penas, chegar ao topo, Para piorar, estava gripado, totalmente congestionado, respirando pela boca e com pouco oxigênio, tanto para mim, como para a moto.

Deus tem estado do meu lado. Quando vi as coisas ficarem feias de verdade, Almir e Júlio apareceram de volta com suas motos. Eles estavam fotografando à beira da estrada, e um caminhoneiro que viu minha dificuldade acenou-lhes que minha moto estava mal. Já estava no plano, mas a quase 5.000 msnm, minha moto não passava de 30 km/h, devido à falta de oxigênio para misturar-se com a gasolina e queimar. Almir começou a empurrar-me com o pé até 80 km/h, durante mais de 60 km. Para complicar um pouco, a temperatura caiu para 1,5ºC negativos (-1,5ºC) e começou a nevar forte. Eu com o nariz entupido e viseira embaçada, nós três tremendo de frio, Almir me empurrando com o pé e a neve caindo forte... Seria belo, se não fosse a situação!

Andamos assim por 1 hora, contornamos o vulcão Licancabur com temperatura negativa até que começou a imensa descida de 50 km em direção a San Pedro. Almir parou de empurrar, minha moto desceu sozinha e a temperatura foi aumentando à medida que descíamos. Parou de nevar, e conseguimos chegar, depauperados, à aduana de San Pedro de Atacama com noite alta, onde fizemos todos os trâmites de ingresso no Chile.

Não tínhamos moeda chilena. Passamos em um caixa automático, sacamos dinheiro e fomos procurar hotel. Encontramos muitos motoqueiros de vários locais, muitos haviam tido problemas para entrar na Bolívia e retornaram, como nós.

Jantamos às 23:30 h e fomos dormir totalmente exaustos e esgotados, porém felizes. Afinal, não era isso que queríamos?

O dia de hoje foi incrível em termos de paisagens, que são únicas e raras. Só quem já viu e passou por aqui sabe disso, é impossível descrever, inclusive as cores, o cheiro e até o silêncio dos locais ermos e altos. E a neve? Que coisa linda, pena que veio em uma hora em que não deu para curti-la como merecia.



                                           Vulcão Licancabur ao fundo, na estrada à noite  -1,5ºC!

Nós três temos a mesma opinião, de que tudo que passamos valeu, e muito! E devo aos meus companheiros de viagem, Júlio e Almir, o fato de estar aqui escrevendo, pois se não voltassem para me socorrer, não sei como sairia dali, com a moto sem passar dos 20 km/h, a uma temperatura de -1,5ºC, à noite e com a neve caindo. Realmente, seria muito mais difícil do que foi.

terça-feira, 27 de março de 2012

Mudança de planos


Ontem à noite fiz contato com Almir e Júlio, eles estavam em um hotel em La Quiaca.

Hoje pela manhã, após fechar a conta no hotel onde estava, fui para o hotel deles para sairmos juntos com destino à Bolívia. O Júlio houvera levado 2 tombos no caminho alternativo que fizeram a La Quiaca, a moto sofreu pequenos danos e ele estava com dor no joelho e no pescoço.

Tentamos conseguir uma loja de autopeças e uma oficina de moto em La Quiaca, mas não existiam. Demos um jeito no espelho da moto (BMW) e o Júlio comprou anti-inflamatório em uma farmácia, para aliviar a dor.



Abastecemos as motos, lubrificamos as correntes e seguimos para o posto de fronteira. Perdemos algum tempo devido à morosidade e à quantidade de pessoas, mas demos saída da Argentina, baixamos as motos e ingressamos na Bolívia. Quando fomos entrar com as motos, alegaram qe o seguro carta verde não valia na Bolívia. Tentamos saber como fazer o seguro exigido pela polícia boliviana e informaram que não existe seguradora na Bolívia que faça o tal seguro que nos exigiam. Criaram cada vez mais difculdades, para poder vender as facilidades. O Júlio ligou para o seu corretor, em Londrina, que iria resolver o problema enviando um fax para a aduana boliviana.

Perdemos de 3 a 4 horas na fronteira, com tudo resolvido, porém não podíamos ingressar na Bolívia por conta do tal seguro que não existia e ninguém sabia informar como era ou quem o fazia.

Resolvemos então abortar o ingresso na Bolívia. Demos saída da Bolívia, registramos novamente as motos para ingresso na Argentina, demos entrada na Argentina novamente em nossos passaportes e voltamos para La Quiaca, onde almoçamos no hotel de Turismo, onde Júlio e Almir estiveram hospedados. Achamos que esta foi a melhor decisão, amanhã iremos para San Pedro de Atacama, no Chile. Adeus, Bolívia, quem quiser que vá! Nossos passaportes se encheram de carimbos de entrada e saída dos 2  países.

Descemos a Quebrada de Humahuaca pela ruta 9, o mesmo caminho que fiz na ida. Pegamos uma forte chuva de gelo, justamente no ponto mais alto (Abra Pamapa, 3980 msnm), e a temperatura baixou para 2 ºC, fez um frio terrível, e as pedras de gelo que caíam machucaram a minha mão que ficou totalmente vermelha e dolorida. Esfriou tanto que parei de sentir as mãos, tive que parar debaixo da chuva e do gelo para colocar luvas mais grossas. Ainda assim, o cenário era fantástico, eles gostaram muito de todo o visual do caminho.

Entramos para dormir em Tilcara, bela cidadezinha com casas de adobe encravada aos pés das montanhas, no coração da Quebrada. Todos adoramos a cidade, e conseguimos uma pousada hiperbacana para pernoitar.

À noite, eu e Almir ainda saímos no frio para ir até o centro e comprar algumas provisões para amanhã, quando deveremos cruzar o Paso de Jama em direção ao Chile.

A temperatura em Tilcara deve estar em torno dos 8 ºC.

Com tantos acontecimentos, notícias ruins da B olíviae com as dificuldades colocadas, nós 3 gostamos da decisão de mudar o rumo da viagem. Para mim, tudo é festa, mas também gostel! Tudo levava a isto.

Quebrada de Humahuaca

26 de março de 2012 - segunda feira


Acordei um pouco antes da 6:00 h, juntamente com Almir e Júlio, que queriam partir logo cedo. Tomamos café juntos no hotel, despedimo-nos e eles seguiram viagem. Fui a pé até a região onde se vendem peças para motos. Chegando próximo, perguntei a um motoqueiro onde encontraria uma corrente de Falcon, e ele levou-me na garupa até a porta da loja. A corrente igual à minha custava uma fortuna, comprei uma sem retentor de 2ª linha. Descobri onde havia uma oficina, retornei a pé ao hotel (um pouco longe), peguei a moto e levei na oficina. O mecânico avaliou que seria melhor comprar uma emenda de corrente e substituir o elo que tranformamos em emenda no meio da ruta 16. Ele simplesmente trocou o elo pela emenda nova e pronto! A corrente que comprei vou levar como reserva. Comprei também óleo e o mecânico trocou pra mim o óleo e o filtro. Tenho dado sorte, o cara era um mecânico cuidadoso e caprichoso, além de competente.

Com a moto pronta, voltei ao hotel, coloquei a bagagem, saquei dinheiro no caixa eletrônico do shopping vizinho ao hotel e parti. Imediatamente começou a chover, tive que colocar a incômoda roupa de chuva. Saí às 12:00 h de Jujuy, sem almoçar.

Não abasteci em Jujuy, e o posto onde eu contava abastecer na estrada, em Volcán, estava fechado. Eu tinha pouca gasolina no tanque. A chuva parou e fui até Purmamarca, uma pequena cidade indígena toda construida em adobe, inclusive sua pequena e graciosa igreja. Andei a pé pelas ruas da cidade, comi um hamburguer como almoço e voltei à estrada, havia muito que ver e eu precisava abastecer, estava quase sem gasolina. Lentamente comecei a subir a Quebrada de Humahuaca, um vale com o rio Grande no meio, com 1 km de largura e 300 km de comprimento, acaba em La Quiaca, fronteira com a Bolívia. A Quebrada sobe de 1200 msnm (Jujuy) até 3.490 msnm (La Quaca), em cerca de 300 km de estrada. A moto estava fraca e falhava muito, não sei se devido a algum entupimento no carburador (já chegou em Jujuy falhando) ou se por causa da altitude. O fato é que não passava de 80 km/h e estava muito fraca. Com a gasolina quase acabando, abasteci em Tilcara, no único posto existente depois de Jujuy.


Continuei subindo a Quebrada, que é um espetáculo da natureza: montanhas, rios, cores, vegetação, tudo tem uma beleza selvagem e exótica. Não dá para descrever com palavras, e as fotos não serão justas com a grandiosidade e abrangência da paisagem. Os pequenos povoados foram passando, e eu subindo vagarosamente, porém feliz por estar naquele local apreciando e aproveitando toda aquela exuberância. A moto lenta e fraca, mas isso não era importnte, eu não tinha mais pressa.

Havia algumas motos fazendo o mesmo trajeto que eu na Quebrada. Em Tilcara, durante o abastecmento, conheci e conversei com um casal da Malásia em uma moto com placa da Colômbia. Também iam para a Bolívia. Fiquei curioso (mas não perguntei!) para saber como chegaram até aqui e como obtiveram uma moto da Colômbia!

Em Abra Pampa passei pelo ponto mais alto, 3.890 msnm. Eu não senti a falta de oxigênio, quem sentiu foi a moto. A estrada nas grandes altitudes é muito bonita, corre junto ao topo das montanhas.

Às 18:30 h, bastante cansado, cheguei em La Quiaca, meu destino final na Argentina. A cidade faz fronteira com a Bolívia, é fria e fica a 3.490 msnm. Não estava disposto a andar muito para conseguir um hotel bom. Hospedei-me no Hostal Munay, conseguindo um desconto e pagando 130 pesos pelo pernoite. Acho que vale.

Tomei um banho e fui procurar uma internet para passar um e-mail para o Júlio, para que quando eles cheguem a La Quiaca saibam que estou hospedado aqui, e, quem sabe, possamos seguir viagem juntos, apesar da inferioridade da minha moto em relação à deles.

Todos os povoados da Quebrada de Humahuaca são como La Quiaca: pequenos e com casas simples. Já falei antes, gosto de andar por lugares assim e conviver e conversar com o povo. Sempre aprendemos alguma coisa com as pessoas simples.

Amanhã pela manhã vou verificar como é a fronteira e os documentos exigidos para ingressar com a moto na Bolívia. Hoje estou muito cansado, vou comer algo e dormir!

domingo, 25 de março de 2012

O hotel em Taco Pozo era tão vagabundo que nem café da manhã tinha, assim, às 8:00 h eu estava entrando na ruta 16 para seguir em velocidade reduzida (80 km/h) a fim de poupar a corrente, que estava com o elo improvisado. Andei bem, em jejum, por 80 km, até El Quebrachal, onde tomei café em um quiosque na beira da estrada.
Segui no meu ritmo lento até o final da ruta 16, onde tomei o rumo de Salta pela excelente ruta 9. Encontrei novamente com Júlio e Almir fotografando à beira da estrada. Parei, conversamos e fomos seguindo praticamente juntos: eles com maior velocidade me esperavam nos próximos postos de gasolina. Almoçamos todos em Gral. Guemes e decidimos ir diretamente para San Salvador de Jujuy, ao invés de Salta.Em Jujuy eu poderia reparar a corrente da Falcon.
 Jantamos juntos no shopping, porém antes tomamos café em uma confeitaria na praça. Eu já conhecia a cidade devido a viagens anteriores, mas continua organizada e agradável, apesar de não ter grandes atrativos especiais.


Apesar da baixa velocidade em que andei, o dia hoje foi bastante tranqüilo, principalmente por ser domingo, quando as estradas estão vazias e todo o comércio da cidade está fechado. Amanhã vou procurar uma oficina para resolver o caso da corrente da moto. Gostaria de poder seguir com Júlio e Almir ao menos até Purmamarca, mas preciso consertar a moto antes.

sábado, 24 de março de 2012

Um pequeno contratempo... no Chaco



Após fechar a conta no hotel Colon em Resistência e amarrar a bagagem na  moto, parei para abastecer, verificar o nível do óleo e lubrificar a corrente. Cruzei a cidade desde o centro e às 9:00 h entrei na ruta 16, que cruza a província do Chaco e leva a Salta.

Como sempre, a estrada estava vazia, mas chega a dar aflição saber que há 1.000 km pela frente a serem percorridos. Andei bem, mantive os 110 km/h e fui pacientemente comendo os quilômetros. A moto faz 15 km/l, é sempre assim com a gasolina argentina, e o arrasto devido aos alforjes é grande.

Parei para almoçar em Pampa del Infierno, a uns 250 km de Resistência, e retornei à estrada de imediato, para conseguir rodar mais. Havia percorrido 25 km quando de repente a moto perdeu força e o motor disparou. Parei no acostamento e constatei a tragédia: a moto estava sem a corrente da transmissão, ou seja, a corrente se partiu, caiu na estrada e ficou para trás. Meu primeiro pensamento foi "estou fudido, o que vou fazer neste local sem qualquer recurso, longe de tudo, sem cidades, sem movimento e com um calor de derreter os miolos?"  Eram exatamente 13:00 h e o sol estava a pino. A estrada é deserta, não há cidades ou povoados em um raio de 25 km e a minha moto não é conhecida na Argentina.



A primeira providência foi encontrar a corrente. Voltei 500 m a pé e a achei, havia sido literalmente cortada no elo de emenda, não me perguntem como. A ajuda e a salvação chegaram na forma de um senhor humilde, sem dentes, que vinha em uma bicicleta motorizada. Ele parou e se propôs a me ajudar. Ele trazia algumas ferramentas básicas e tinha idéia de como resolver o problema ao menos para eu sair daquele lugar. Eu mesmo não acreditava que fosse dar certo, mas a obstinação do velho era tanta que fiquei contagiado. Em sua simplicidade e imensa sabedoria ele coordenou todas as ações que tivemos que tomar para eu poder sair dali. Até um martelo e um punção obtivemos em uma estância próxima, a única em um raio de 50 km. Para encurtar a história, removemos um elo da corrente e improvisamos uma emenda. O Juan (era esse seu nome) me salvou com tanto interesse em ajudar e ao mesmo tempo de forma tão desinteressada que me comoveu. Simples, sábio e capaz! Um enviado dos céus!


Saí devagar com medo do elo provisório romper-se novamente, e então não haveria mais jeito. Percorri os próximos 38 km a 40 km/h, levei 1:10 h.

Cheguei ao povoado de Los Frentones e procurei um mecânico de motos. O rapaz me atendeu muito bem, checou toda a corrente à procura de mais danos, mas ela estava íntegra, a menos do reparo realizado. Elogiou o conserto feito, e disse que essa corrente é muito difícil achar na Argentina, somente em Salta eu a encontraria, mas seria possível seguir viagem em velocidade menor que os 110 km/h que eu vinha imprimindo. Não me cobrou nada e ainda conseguiu água, sabão e uma toalha limpa para eu lavar as mãos, que estavam em estado deplorável de tanto mexer em corrente. Mais uma coisa que não esquecerei.

Estava a mais de 500 km de Salta, e logo escureceria,

Baixei a velocidade para 80 km/h, o que foi um tormento, mas estava andando novamente!. Mal saí de Los Frentones vi um rapaz empurrando uma Krypton. Parei para ajudá-lo naquele fim de mundo, ele escorria de suor e cobrira a cabeça com um casaco para se proteger do sol. Estava com o pneu furado, não tive como ajudá-lo, nem sei como conseguiu resolver seu problema.

Enquanto eu conversava com o rapaz da Krypton, passaram 2 motociclistas do Brasil por nós sem parar. Mantive minha velocidade de penitência, e ao chegar nos policiais de Pampa de los Guanacos (os mais corruptos da ruta 16), eles estavam parados "conversando". Fiz um sinal para o guarda e passei direto, sem ser parado. Logo adiante parei para abastecer e chegaram os 2 motociclisatas, que se chamam Júlio e Almir. Tiveram que dar uma "contribution para la policia". Eles vão também para Uyuni, porém com um roteiro diferente do meu. Conversamos sobre a viagem, mas não posso acompanhá-los, pois além de estarem com motos maiores e mais potentes, não posso correr até que troque a corrente, sob pena de ficar definitivamente na estrada, sem conserto.

Encontramo-nos no posto de gasolina seguinte, 100 km adiante, em Monte Quemado, eles iriam tentar cambiar dinheiro na cidade.

Segui até Taco Pozo, onde entrei para pernoitar, estava exausto pelos acontecimentos e pela baixa velocidade naquela reta interminável, parecia que o tempo e os quilômetros não passavam.

Taco Pozo parece uma cidade de 100 anos atrás: cortada ao meio por uma ferrovia, só tem ruas de terra e casas simples. Existe um hotel, onde fiquei. É uma boca de porco, mas não tinha opção, pois estava muito cansado e com muita dor nas costas.

Após um banho restaurador, saí para jantar, mas só consegui comer um hamburguer. Ao menos tudo se resolveu e acabou bem.

O dia foi puxado, não rodei muito (cerca de 500 km), mas foi uma lição de solidariedade que não esquecerei.

Valeu!